quinta-feira, 15 de julho de 2010

Noticia de jornal

leio no jornal a notícia que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca , trinta anos presumíveis , pobremente vestido , morreu de fome , sem socorros , em pleno o centro da cidade , permanecendo deitado na calçada durante 72 horas , para finalmente morrer de fome.
Morreu de fome. depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do pronto socorro e uma radio patrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.
Um homem que morreu de fome.O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era de alçada da delegacia de medicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.
O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao instituto MÉDICO LEGAL sem ser identificado. Nada se sabe dele , senão morreu de fome.
Um homem morre de fome em em plena rua, entre centenas de pessoas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo,um anormal ,um tarado ,um marginal, um proscrito, uma coisa-não é um homem . E os outros homens cumprem seu destino de passantes , seu destino de passantes é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam , ao lado do homem que morre de fome , com um olhar de nojo ,desdém, inquietação e até mesmo piedade , ou sem olhar nenhum. Passam, eo homem continua morrendo de fome, sozinho,isolado,perdido entre os homens sem socorro e sem perdão.
Não é da alçada do comissário, nem do hospital nem da radiopatrulha , por que haveria de ser da minha alçada?Que é que eu tenho com isso?deixa o homem morrer de fome .
E o homem morreu de fome. DE 30 anos presumíveis . Pobremente vestido. morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistênsia dos comerciantes, que jamais morrerão de fome , pedido providências às autoridades.As autoridades nada mais puderam fezer senão remover o corpo do homem . Deviam deixar que apodrecesse, para encarnamento dos outros homens.Nada mais puderam fazer se não esperar que morresse de fome.
E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição, tombado em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

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